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Biografia e Obra de Jacques Maritain

14 maio 2016

 

Exposição feita dia 14/5/2016 na Paróquia de São Domingos (Comunidade das Comunidades), Perdizes, São Paulo.

Renato Rua de Almeida[1]

Jacques Maritain nasceu em Paris no ano de 1882, quando a França republicana ainda ressentia nesse final do século XIX as consequências da derrota na guerra franco-prussiana de 1870.

Neto do grande advogado e político francês Jules Fabre, representante francês como ministro das relações exteriores na assinatura do armistício da guerra franco-prussiana de 1870 junto ao vitorioso Bismarck, quando a França cedeu à Alemanha o território da Alsácia e Lorena. Foi a seguir Jules Fabre em 1873 um dos dois fundadores da III República francesa.

Jules Fabre, avô materno de Jacques Maritain, era descendente do beato Pedro Fabre, companheiro de Santo Inácio de Loiola, que, com ele, mais São Francisco Xavier e alguns outros companheiros, fundaram em Paris, no ano de 1534, a Companhia de Jesus, que é a ordem religiosa dos padres jesuítas. A identificação SJ dos padres jesuítas vem da denominação Sociedade de Jesus, como a identificação OP dos padres dominicanos vem da denominação Ordem dos Pregadores fundada por São Domingos de Gusmão em 1215, que está comemorando o jubileu de 800 anos de fundação.

Ainda muito jovem, Maritain tinha adquirido grande cultura e erudição, não só pela influência cultural da família inspirada em Jules Frabe, seu avô materno, mas também por ter feito o ensino médio no famoso Liceu Henri-IV em Paris e por estar cursando filosofia e ciências naturais na Sorbonne, quando conheceu Raíssa, de origem israelita, também estudante de ciências naturais na Sorbonne, de quem se tornou namorado e com quem se casaria mais tarde.

Ao se conheceram, ainda não convertidos ao catolicismo – Maritain tivera uma educação religiosa protestante por influência da madastra de sua mãe, embora não fosse nessa época um praticante e sim um jovem de ideias republicanas e socialistas libertárias, enquanto Raíssa tivera uma educação religiosa judaica, embora ela também não fosse uma praticante, mas uma jovem com ideias libertárias -, ele, com apenas 22 anos, e ela , com 20 anos, estavam angustiados com o pensamento racionalista e positivista que dominava a Sorbonne alicerçado por uma filosofia do ceticismo e do relativismo.

Por essa razão, fizeram um pacto ao passearem no Jardin des Plantes – famoso parque ao lado do Quartier Latin -, no sentido de que, se não encontrassem dentro de um ano o verdadeiro sentido da verdade e uma razão profunda para viver, cometeriam ambos o suicídio.

A bondade de Deus – expressão usada pela própria Raíssa Maritain em seu formidável livro chamado As Grandes Amizades – fez com que participassem do curso que o filósofo Henri Bergson ministrava no Collège de France sobre a metafísica em que apresentava uma reflexão sobre a verdade – o Collège de France foi criado pelo governo francês para fazer uma espécie de contraponto cultural à Sorbonne -, e assim desistissem da ideia do suicídio, por encontrarem nessas lições sobre a metafísica do grande filósofo francês um sentido para suas vidas de jovens intelectuais.

A seguir, conheceram o escritor católico Léon Bloy, que fortemente os marcou pela autenticidade de sua vida cristã austera, levando-os à conversão ao catolicismo.

Foi com o conhecimento do padre dominicano Humbert Clérrisac que Maritain chegou à doutrina de Santo Tomás de Aquino, tornando-se seu profundo estudioso a ponto de alguns o chamarem de neo-tomista, expressão que não gostava, pois considerava-se apenas um filósofo que lia sobretudo, a partir de então, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, enquanto que o Doutor Angélico era, por excelência, um grande teólogo.

A carreira filosófica de Maritain, a grosso modo, compreende duas grandes fases: a primeira delas direcionada às reflexões e publicações sobre a metafísica e a segunda sobre a filosofia política.

Na primeira fase, sobressaem suas obras denominadas Os Degraus do Saber, em que afirma sua famosa máxima “distinguir para unir”, e as Setes Lições sobre o Ser.

Em razão do surgimento e do recrudescimento no continente europeu das ideias totalitárias do nazismo e do fascimo e a pedido do grande Papa Pio XI, com quem esteve pessoalmente a seu convite no Vaticano, Maritain foi por ele concitado a escrever sobre a filosofia política com uma visão crítica sobre as ideias totalitárias políticas em expansão.

Em 1936, depois do curso que deu na Espanha sobre o assunto, publicou talvez sua obra mais conhecida denominada Humanismo Integral, que, para ele, é o humanismo teocêntrico e não antropocêntrico, isto é, humanismo teocêntrico é aquele que tem em Deus a figura central de sua reflexão, diferente do humanismo antropocêntrico que tem no homem a figura central de suas análises.

Com sua primeira estada mais prolongada nos Estados Unidos a partir do final de 1938, quando deu início ao exílio de combatente católico face ao domínio do nazifascismo na Europa, que resultou na ocupação da França pelas forças militares de Hitler, Maritain passou a lecionar nas universidades americanas e deu sequência às suas reflexões sobre filosofia política, publicando em 1942 outra grande obra denominada Os direitos do homem e a lei natural, que serviu de base para o texto da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 da ONU.

Com o fim da II Guerra Mundial e a derrota do eixo – Alemanha, Itália e Japão -, Maritain retornou à França e foi nomeado por De Gaulle embaixador no Vaticano, onde ficou 3 anos e conheceu o cardeal Montini, seu assíduo leitor, futuro Papa Paulo VI, que o condecorou com distinção especial durante seu pontificado.

Maritain, como visto, tem papel fundamental na edição da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 da ONU, pois, além de seu livro já mencionado Os direitos do homem e a lei natural, que serviu, como visto, de inspiração para o texto da ONU, marcou presença pessoal com o discurso inaugural como chefe da delegação francesa no congresso mundial da Unesco, órgão da ONU, realizado na cidade do México em 1947, em preparação para o congresso da ONU, que veio a aprovar em 10 de dezembro de 1948, a mencionada Declaração Universal dos Direitos do Homem, que é o mais importante tratado internacional sobre os direitos humanos.

Por fim, é de se ressaltar a publicação, também em 1948, de outra grande obra de sua autoria sobre filosofia política denominada O Homem e o Estado.

Após deixar a embaixada da França no Vaticano, Maritain retornou pela segunda vez aos Estados Unidos, onde permaneceu 10 anos como professor da Unversidade de Princenton, e foi responsável pela formação de muitos universitários americanos com o espírito do humanismo integral, dos quais alguns deles participaram do governo do presidente John Kennedy, para cuja posse Maritain foi convidado especial.

Maritain muito influenciou também os países da América do Sul, sobretudo a Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Venezuela, destacando-se como seus seguidores os jovens que ingressaram na vida política, com a formação de partidos democratas cristãos inspirados no humanismo integral, dentre eles Eduardo Frei, que chegou a presidente do Chile, Rafael Caldeira, presidente da Venezuela, e Franco Montoro, governador do Estado de São Paulo.

É de se destacar ainda a influência do pensamento de Maritain exercida sobre a figura intelectual de Alceu Amoroso Lima, seu grande discípulo brasileiro.

De volta à França, perdeu em novembro de 1960 sua grande companheira e esposa Raíssa Maritain, levando Maritain a fazer parte em 1970 da comunidade religiosa Fraternidade dos Irmãozinhos de Jesus fundada sob a inspiração da espiritualidade do Beato Charles de Foucauld em Touluse, na França, para preparar-se espiritualmente para a morte, como ele próprio afirmou.

Antes, em 1966, publicou seu último livro denominado Paysan de la Garrone com uma temática polêmica sobre o Concílio Vaticano II.

Faleceu santamente no dia 28 de abril 1973, aos 90 anos, depois de uma vida exemplar e frutuosa como o maior filósofo humanista-cristão do século XX.

Sua vasta obra publicada em XVI volumes, dos quais dois com textos de Raíssa Maritain, é conhecida universalmente e são vários os países que fundaram institutos que levam seu nome, para difundirem e debaterem seu pensamento em torno do humanismo integral face à realidade de nossos dias, entre eles o Instituto Jacques Maritain do Brasil, do qual tenho a honra de ser presidente atualmente, e que tem como programa cultural nesse ano de 2016, além de seu já tradicional Café Filosófico, que terá início no próximo dia 31 de maio de 2016, com a palestra de Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo sobre a Encíclica Laudato Si´, também o III Encontro dos Institutos Jacques Maritain da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, a realizar-se nas dependências da PUC-SP, nos próximos dias 6, 7 e 8 de outubro de 2016.

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[1] Advogado trabalhista em São Paulo, ex-advogado de Sindicatos de trabalhadores (Metalúrgicos, Bancários e Comerciários), professor de direito do trabalho da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutor em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne) e Presidente do Instituto Jacques Maritain do Brasil.