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Jacques Maritain e o Tomismo no século XX

15 mar 2017

DELGADO, José Luiz. Jacques Maritian e o tomismo no século XX. In: Ágora Filosófica, Recife, ano 5, n. 1, jan./jun., 2005, p. 1-13.

Dr. José Luiz Delgado (UFPE)

(palestra na II Jornada Tomista de Pernambuco, realizada no Círculo Católico, 06 de outubro de 2004)

  1. Filósofo e católico: uma impossibilidade?

 

Do filósofo católico, assim como também do romancista católico – penso nisso a propósito de Graham Greene, cujo centenário de nascimento transcorreu agora, no dia 2 do corrente – o primeiro problema que se põe, ou que muitos põem, ou que certa mentalidade moderna, laica, um tanto anti-religiosa, põe, é o de como pode ele ser filósofo e ser católico, ser simultaneamente filósofo e católico, ou como pode também ser romancista e ser católico, simultaneamente romancista e católico.

 

Essa suspeita que alguns têm contra o filósofo católico, de que jamais poderia ser autêntico filósofo, uma vez que parte dos dados da fé, foi exposta explicitamente ao menos por um nome conhecido de toda gente como o inglês Bertrand Russell, na sua “História da Filosofia Ocidental”, no capítulo dedicado a S.Tomás, ou, até melhor, no capítulo contra S.Tomás. Bertrand Russel acusa diretamente S.Tomás (e, portanto, na esteira dele, a todos os filósofos católicos) denunciando que, nesses filósofos, “o apelo à razão é, em certo sentido, insincero, já que a conclusão a que se há de chegar está fixada de antemão.” [1].

 

Diz mais ainda:

Há pouco do verdadeiro espírito filosófico em Aquino. Não se dispõe a seguir, como o Sócrates platônico, para onde quer que seu argumento o possa levar. Não está empenhado numa pesquisa cujo resultado não possa ser conhecido de antemão. Antes de começar a filosofar, ele já conhece a verdade: está declarada na fé católica. Se, aparentemente, consegue encontrar argumentos racionais para algumas partes da fé, tanto melhor; se não, basta-lhe voltar de novo à revelação. A descoberta de argumentos para uma conclusão dada de antemão não é filosofia, mas uma alegação especial. Não posso, portanto, admitir que mereça ser colocado no mesmo nível que os melhores filósofos da Grécia ou dos tempos modernos” [2].

E do católico em geral dirá a mesma coisa, ou até pior: “é improvável que ele abandone certas crenças, mesmo que se convença de que os argumentos de São Tomás são maus; inventará outros argumentos ou procurará refugiar-se na revelação”.[3]

 

 Ao contrário, o que Maritain defendeu e praticou sempre foi exatamente o oposto disso. Ele foi até capaz uma vez de escrever isso que pode parecer uma enormidade: “se houvesse salvação fora da Verdade, eu não desejaria essa salvação porque prefiro a Verdade à minha alegria e à minha liberdade” [4]. Ao invés, portanto, de não ser um filósofo, como pretendem mediocridades como a de Bertrand Russell, Maritain deve é ser apontado, de fato, como o modelo do filósofo verdadeiro.

 

Nem se pode deixar de destacar o fato gritante de que os filósofos tomistas – precisamente em nome de sua paixão pela verdade – renunciaram à construção de uma doutrina própria, que é o que todos os filósofos, desde Descartes, vieram fazendo, na medida em que, seguindo o modelo cartesiano, descartavam todo o pensamento anterior para enveredar por um caminho novo e singular. O que, senão exatamente o ardor pela verdade, levou aqueles espíritos que aderiram ao tomismo a desistir da originalidade e deixar de lado a veleidade e a vaidade de criar um novo “ismo”, o da doutrina que levasse seus próprios nomes? Maritain fez isso, renunciou à fantasia de uma doutrina própria, aderindo a doutrina alheia, por causa da força da evidência que reconheceu nela, doutrina já conhecida e já consagrada, dizendo de si mesmo que era apenas “uma ponta, uma continuação, uma espécie de sujeito chamado Jacques Maritain Caietano de Santo Tomás” [5], tanto assim se integrava numa longa tradição, numa continuidade, numa imensa família espiritual – na verdade aquela que começou na Grécia com Platão e sobretudo com Aristóteles e teve seu ponto culminante no século XIII da era cristã com Tomás, o gordo filho de Aquino, na Itália.

 

No entanto, menos do que sublinhar aqui a mediocridade, também nesse ponto, de Bertrand Russell, importa verificar que aquela suspeita contra os filósofos católicos é, lamentavelmente, a posição comum da filosofia contemporânea. É evidente que é essa mesma suspeita, ainda que não formulada tão explicitamente como o foi pelo conhecido pensador inglês, que leva muito dos recenseadores da filosofia contemporânea a simplesmente ignorar a existência do movimento tomista, que foi, no entanto, uma das mais importantes correntes filosóficas do século XX. Tenho me divertido, ao folhear eruditos volumes sobre a filosofia do século passado, procurando alguma referência ao tomismo e não encontrando. É como se simplesmente não tivesse ele existido…

 

Tamanha suspeita, com a conseqüente omissão do tomismo, é gritantemente injusta, é o resultado de uma incompreensão, ou de uma cegueira brutal. Por que querem ver a adesão à fé por parte dos pensadores cristãos, como um ponto de partida, e nunca como um ponto de chegada? Por que a fé, para essa mentalidade, só pode ser um começo, revelação do alto, graça recebida literalmente de graça, a partir da qual o pretenso “filósofo” católico trabalharia? Pior ainda, por que somente podem tomar a adesão à Igreja e a fidelidade ao Papa como um início, todo o trabalho do “filósofo” católico somente se podendo explicar a partir daí, e nunca como o resultado de sua pesquisa, o termo, o ponto de chegada de sua inquietação, igual, absolutamente igual, enquanto inquietação, à de todo outro filósofo verdadeiro? Que discordem das conclusões do pensador católico, muito bem, mas por que não as podem aceitar precisamente como conclusões, conclusões de uma pesquisa empreendida com tanta sinceridade e tanta honestidade quanto a de qualquer outro? Por que, ao invés de examinarem e avaliarem as conclusões que os filósofos católicos apresentam, eles se agarram ao pressuposto de que essas não podem nunca ser “conclusões”? Por que não consideram a hipótese de entenderem, os filósofos católicos, plenamente compatíveis os dados da fé com os de sua razão?

 

No fundo, tudo isso é expressão do preconceito, do imenso preconceito do mundo – do mundo que é um dos três inimigos da alma – contra a Igreja e, em última análise, contra a Verdade – que, nada obstante, é, ou deveria ser, aquilo a ser procurado em absoluto primeiro lugar, a única coisa que justifica a busca do filósofo.

 

E é, sobretudo, um desconhecimento absoluto seja da história pessoal dos filósofos católicos, seja das posições que explicitamente eles defendem.

 

  1. O itinerário de Maritain: a procura da verdade

 

Pois, do ponto de vista biográfico, Maritain não era de família católica, não era católico desde o berço, não aderiu à Igreja por tradição familiar, não havendo razão alguma, portanto, para que se acomodasse ao dogma católico. Sua adesão à Igreja e ao tomismo é simplesmente o resultado de sua busca pessoal, de sua investigação própria, de sua inquietação – certa ou errada, é outro problema, mas tão legítima, tão honesta, tão desinteressada quanto qualquer outra, nenhuma se podendo arrogar a pretensão de haver sido busca mais pura ou mais sincera ou mais íntegra do que a de Maritain.

 

Quem sem emoção leu, nas “Grandes Amizades”, a descrição da angústia, no “Jardin des Plantes”, dos dois jovens universitários, Jacques e Raissa, desconsolados diante do panorama de desalento e ceticismo da filosofia moderna que lhes era transmitido na Sorbonne?

“Acabávamos de dar um balanço, escreveu Raissa, em tudo o que nos tinham trazido nossos dois ou três anos de estudos na Sorbonne. Inegavelmente uma bagagem bem razoável de conhecimentos particulares, científicos e filosóficos. Mas esses conhecimentos estavam minados na base pelo relativismo dos sábios, pelo ceticismo dos filósofos” [6].

 

O desfecho foi praticamente o desespero:

“Chegamos à seguinte conclusão: se a nossa natureza era tão infeliz que não chegava a possuir senão uma pseudo-inteligência, capaz de tudo menos da verdade, se quando se julgava a si mesma devia humilhar-se até esse ponto, não podíamos nem pensar nem agir dignamente. Tudo se tornava então para nós absurdo e inaceitável – e nem ao menos sabíamos o que, em nós, se recusava assim a aceitar.” “Não podemos viver de acordo com preconceitos, bons ou maus, temos necessidade de pesar-lhes a justiça e o valor – mas qual a medida? Qual a medida de todas as coisas?” “Quero saber se ser é um acidente, um benefício ou uma desgraça, desprezo a resignação e a renúncia da inteligência, de que temos tantos exemplos em torno de nós” [7].

 

O que os salvou, diz ela, “o que fez de nosso desespero real um desespero ainda condicional”, foi o sofrimento, a angústia decorrente da “presença de um elemento irredutível ao absurdo a que tudo nos queria levar” [8]. E, considerando “não ser possível viver humanamente” se fosse preciso “renunciar a achar um sentido qualquer para a palavra verdade, para a distinção entre o bem e o mal”, e que “esta vida que não escolhi, também não a quero viver nas trevas” [9], fizeram então uma resolução solene com o desfecho de um compromisso trágico: a resolução de “olhar de frente, e até às últimas conseqüências, os dados do universo infeliz e cruel, que tinha como única luz a filosofia do ceticismo e do relativismo” [10], a resolução, pois, de “entregar-nos ao desconhecido”, com a tragédia do compromisso de

se essa experiência não desse certo, a solução seria o suicídio – o suicídio antes que se tivesse acumulado a poeira dos anos, antes que as nossas forças frescas ficassem gastas. Queríamos morrer por um ato livre de recusa, já que era impossível viver conforme à verdade” [11].

 

Dramas desse tipo, angústias assim, resoluções e compromissos tão desesperados não são, obviamente, a história de ninguém acomodado na própria fé, tranqüilo, pleno de certezas, a contemplar, do alto dessas certezas, o desconcerto do mundo. São uma palpitante aventura humana, a inquietação de espíritos eminentemente à procura, em busca da verdade, a frágil razão humana desesperadamente à cata das razões. Não são nenhuma história conformada ou conformista de criaturas bem instaladas na existência. Por que então, como então ignorar essa inquietude e desprezar, como não-filosófico, o esforço da razão que assim se agoniou?

 

E nem a chegada a S.Tomás, a descoberta de S.Tomás foi fácil ou imediata depois dessas angústias do “Jardin des Plantes”. Houve toda a revelação, primeiro, de Bergson, o deslumbramento com aquele professor que representava uma luz diante dos relativismos e dos negativismos da Sorbonne. Maritain foi tido, durante esses anos iniciais, como o primeiro dos discípulos de Bergson – tanto que seu livro de estréia iria ser justamente a afirmação de sua ruptura com o bergsonismo. Depois ainda haveria Bloy, o perturbador Leon Bloy – aquele da frase definitiva “Não há senão uma única tristeza: a de não ser santo”, – e somente depois o encontro com S.Tomás e a reconciliação com a filosofia.

 

  1. O único compromisso do tomismo: somente a verdade

 

Por outro lado, o caminho da razão foi o programa que Maritain traçou desde o começo. Por exemplo: estabelecendo as “condições do renascimento tomista”, já numa conferência em 1920 [12], Maritain não aponta, entre essas condições, nenhuma obediência às lições do magistério da Igreja – que devem ter um valor absolutamente secundário na vida intelectual, não na ciência propriamente dita, não no “caminho da ciência”, mas apenas na “via ad scientiam”, no “caminho para a ciência”, no aprendizado, importante distinção que ele mesmo desenvolveria depois [13] e sem a qual não se pode ver bem nessa questão. O que recomenda, em absoluto primeiro lugar, “a mais importante condição do renascimento tomista”, é essencialmente filosofar, e isso de uma maneira verdadeiramente desinteressada

porque a nobreza da metafísica, segundo a palavra de Aristóteles, é que ela não serve para nada, isto é, ela não é, na sua essência, ordenada a outra coisa senão à contemplação da verdade. A ação que se impõe antes de tudo aos filósofos escolásticos é contemplar sempre mais profunda e mais veementemente as verdades da metafísica e fazer progredir esta ciência” [14].

 

A esse programa de completa “liberdade intelectual”, tema de outro estudo da mesma época inicial [15], e de supremo e exclusivo compromisso com a verdade, Maritain foi fiel a vida inteira. Quase 50 anos depois, já no crepúsculo de sua existência luminosa, Maritain escreveria sobre o tomismo e sobre S.Tomás, com a mesma perspectiva, páginas densas e belíssimas, no volume, todo ele admirável, magnífica obra-prima do entardecer, o “Le Paysan de la Garone”, de 1966, dizem que escrito a pedido do próprio Papa Paulo VI para comentar o Concílio.

 

Espantosamente, ninguém terá sido mais crítico dos discípulos de S.Tomás e da escola tomista do que Maritain. “Uma outra falta dos discípulos de S.Tomás, salvo exceções naturalmente, escreve ele [16], foi a de não se aplicarem a desenvolver por si mesma a filosofia de S.Tomás, apresentando-a na sua própria natureza e com a sua própria marcha – que, por definição, nada têm de teológicas.” A “filosofia de S.Tomás” assim apenas glosada e repetida, destacada da teologia mas “estruturada segundo o tratado teológico de que saía” ao cabo não era nem boa teologia nem boa filosofia.

A via inventionis, acusa Maritain, a via da descoberta, que é essencial à filosofia, era-lhe desconhecida; e igualmente o processo próprio da filosofia, que tem o seu ponto de partida na experiência e num comércio prolongado com o mundo e com a realidade sensível. A atmosfera própria na qual a filosofia toma forma, e que é a atmosfera de curiosidade onde ela vive com as suas irmãs, as ciências, e onde ela se eleva à mais pura e mais rarefeita atmosfera, estava igualmente ausente” [17].

 

Bem considerada,

“a filosofia tomista tem (ou deve ter) o comportamento e a marcha características de toda a filosofia: um comportamento e uma marcha de plena liberdade para se defrontar com o real. O filósofo não jura fidelidade a ninguém, nem a nenhuma escola – e nem mesmo, se for tomista, à letra de S.Tomás e a todos os artigos do seu ensinamento. Tem grande necessidade de mestres e grande necessidade de uma tradição, mas para que lhe ensinem a pensar olhando para as coisas. Nesse sentido, ele fica sozinho perante o ser” [18].

 

A firme convicção de Maritain é a de que o tomismo corresponde àquela que seria, a seu ver, uma improbabilidade histórica: uma doutrina essencialmente fundada na verdade, o que não significa “uma doutrina acabada e perfeita[19]. Essa “doutrina essencialmente fundada na verdade” é, dizia Maritain, “uma coisa possível, embora não seja, decerto, uma coisa provável” [20]. Mas alegremente acrescentava que “o improvável às vezes acontece”. E está persuadido, ele e toda a Igreja Católica, de que essa improbabilidade aconteceu mesmo:

graças a uma história muito comprida, na qual o Ocidente e o Oriente cristãos (até mesmo, num dado momento, através do Islão) se empenharam conjuntamente, e graças ao gênio excepcional, e excepcionalmente favorecido pelo momento histórico (assim como também pelas graças do alto) de um Europeu (enfim, é preciso nascer em algum lugar…) que nunca conseguiu falar senão o napolitano e o latim (não havia tempo para métodos lingüísticos) e que também não se julgava com qualquer missão profética – mas que tinha lido todos os Santos Padres e “todos os livros” então conhecidos, como no verso de Mallarmé, e também sabia a Bíblia de cor (quem sabe, talvez seja o caso de Bultmann e de Vogtle e de nossos outros biblistas)” [21]. (Também a ironia de Maritain é deliciosa!)

 

Essa doutrina, assinala Maritain,

“não é, a rigor, a doutrina de um homem, é todo o trabalho dos Santos Padres, dos investigadores da Grécia e dos inspirados de Israel (sem esquecer as etapas anteriormente transpostas pelo espírito humano, nem o saldo fornecido pelo mundo árabe) que ela leva à unidade; e não, decerto, como um ponto final. É um organismo inteligível feito para crescer sempre. É uma doutrina aberta e sem fronteiras; aberta a toda a realidade, onde quer que esteja, e a toda a verdade, donde quer que venha. E porque é assim uma doutrina aberta, uma fome e uma sede de verdade que nunca se saciam, a doutrina de S.Tomás é uma doutrina indefinidamente progressiva; e uma doutrina livre de tudo, salvo da verdade, e livre a respeito dela mesma, das suas imperfeições (para corrigir como num processo perpétuo de auto-reparação, como se dá nos organismos vivos [22]), dos seus vazios (para preencher), dos seus formuladores, dos seus comentadores, e do próprio mestre que a instituiu – quero dizer, livre dele, como ele mesmo era, pronta, como ele, às mudanças e às refundições requeridas por uma melhor vista das coisas e para as ultrapassagens e aprofundamentos exigidos por uma investigação sempre em progresso. (Meu Deus, falo da doutrina de S.Tomás tal como estava nele e tal como ela é em si mesma; a maneira como às vezes tem sido ensinada é outra conversa)” [23].

 

Sim, o tomismo não é, a rigor, a doutrina de um homem, mas a síntese do pensamento humano. Woroniecki observou que

teria repugnado a S.Tomás construir uma doutrina particular, que fosse invenção sua, exclusiva; para ele, a obra de um homem tem pouco valor em comparação com a obra de gerações inteiras. Se, portanto, a doutrina filosófica do Cristianismo leva o nome de S.Tomás não é absolutamente pela mesma razão que tal ou qual sistema filosófico leva o nome de tal ou qual pensador. Dizer Tomismo não quer dizer a doutrina de um tal homem que se chamava Tomás de Aquino, mas a doutrina do gênero humano elaborada durante séculos de reflexão e aprofundada, sistematizada, precisada, e coordenada com os dados da fé, pela inteligência genial do grande filósofo medieval” [24].

 

A liberdade absoluta e o progresso essencial do tomismo, sempre interessado em recolher todas as verdades, onde quer que se encontrem e por quem quer que hajam sido descobertas, ou seja, interessado em “compreender inteligentemente as diversas doutrinas opostas, assim como desprender delas a intuição essencial de que partiram e resgatar as verdades que elas têm cativas” [25] – Maritain não apenas apregoou e defendeu: também praticou, deu exemplo.

 

  1. A renovação efetiva do tomismo em Maritain

 

Com efeito, a magnífica renovação do tomismo (e ele gostava de falar de uma filosofia tomista, não neotomista) no século XX é, em grande medida, obra de Maritain. Não somente por ter sido o grande nome tomista leigo do século [26], mas sobretudo pelo conteúdo de sua obra – grande, enorme, já pela extensão, cerca de 60 alentados volumes, e mais ainda pela qualidade, pelo altíssimo nível de sua meditação.

 

Maritain abordou todos, literalmente todos, os domínios da filosofia – desde os grandes temas especulativos, pelos quais começou, até os dramáticos problemas da ação concreta, inclusive da ação política, aos quais foi convocado pela tragédia da guerra civil espanhola, – e os renovou luminosamente. Em todos esses campos, foi brilhante – na Ontologia, na Filosofia Moral, na Lógica, além da apresentação pedagógica da Introdução. Mesmo na Teodicéia, onde ousa uma sexta via para demonstrar a existência de Deus.

 

Não creio, porém, que seja desarrazoado pretender que em alguns domínios particulares da Filosofia a renovação procedida por Maritain se fez de forma especialmente acentuada, podendo-se falar, a respeito, de uma notável contribuição pessoal de Maritain, com a qual ele ou inovou ou transformou substancialmente o tomismo clássico.

 

Penso, especificamente, em quatro grandes domínios. Primeiro, a filosofia política. A filosofia política de Maritain, se não é a rigor contrária à de S.Tomás, é, na verdade, muito diferente dela. Embora, no fundo, parta dos mesmos princípios, das mesmas concepções fundamentais – tanto a respeito do homem quanto a respeito da sociedade. Simplesmente sete séculos separaram um e outro, e muitas coisas mudaram. Tomás era de outro tempo, e seu ideal político era ainda muito aristotético, dos três regimes, recomendando um equilíbrio entre eles – monarquia, aristocracia e democracia. O grande modelo político da cristandade de S.Tomás era S.Luís rei de França. Maritain veio muito depois, veio depois da Revolução Francesa e da ascensão da democracia. Apegada como estava ao “Ancien regime”, foi uma revolução, dentro da Igreja, admitir-se a democracia que, na origem, aparecera como visceralmente anticatólica e anticlerical, e essa revolução será obra de leigos como Frederico Ozanam, no século XIX, de um Papa com o descortino de Leão XIII e, também, de um pensamento da envergadura do de Maritain. Pode-se dizer que, do ponto de vista filosófico, foi o pensamento de Maritain que reconciliou o cristianismo com o ideal democrático, demonstrando sobretudo que a democracia é de inspiração evangélica, afirmação que é praticamente o refrão do seu pequeno grande livro “Cristianismo e democracia”.

 

Segundo, a estética. É claro que os grandes fundamentos da Estética maritainiana, como mostra Ariano Suassuna no seu importante livro “Iniciação à Estética” se encontram substancialmente em S.Tomás, que havia, também nisso, magistralmente conciliado Aristóteles e Platão. Mas Maritain, a partir de seu excelente conhecimento e sua refinada sensibilidade especialmente quanto à pintura e quanto à poesia, sendo ele inclusive amigo pessoal de grandes pintores e poetas – Péguy, Rouault, Cocteau, Henri Ghéon, Saint-Exupéry, Julien Green, mesmo André Gide, alguns dos quais já então nomes consagrados, outros que ficariam famosos depois, inclusive sendo vários deles freqüentadores dos inesquecíveis Círculos de Meudon – trouxe ao domínio da Estética um revigoramento e uma renovação admiráveis, incorporando toda a beleza que a criatividade humana construiu depois dos esplendores do gótico medieval. Deixou, nesse domínio, uma série até numericamente expressiva de livros: desde “Arte e Escolástica”, que é um dos primeiros, editado em 1920, passando por “Réponse à Jean Cocteau”, “Frontières de la poésie”, “Situation de la poésie”, “La responsabilité de l’artiste”, até o monumental “L’intuition créatrice dans l’art et la poésie”.

 

Terceiro domínio, a filosofia da História – ao qual Maritain era inicialmente avesso, pelo fato, como confessa, “de não simpatizar com Hegel” mas ao qual, antes mesmo que escrevesse seu livro específico a respeito, foi levado pelo Pe. Charles Journet que publicou sugestivo estudo dedicado à “filosofia da história” de Maritain. Trata-se portanto de tema que um outro, antes do próprio Maritain, descobrira nele, – no caso, o notável teólogo Pe. Journet, que depois, no mesmo dia, Paulo VI iria fazer bispo e cardeal. Foi só então, ainda confessa Maritain, que “me capacitei de que havia feito algumas incursões nesse domínio, de modo mais ou menos dispersivo segundo as oportunidades oferecidas pela discussão de outros problemas” [27]e se dispôs a sistematizar essas reflexões num curso que deu nos Estados Unidos e de que é fruto o livro “Sobre a filosofia da história”.

 

Quarto, a crítica do conhecimento – que S.Tomás, a rigor, não conheceu, nem poderia: porque toda a filosofia clássica parte da certeza de que o conhecimento conhece o objeto exterior. Pode-se, por isto mesmo, estudar o conhecimento na filosofia de S.Tomás, ou seja, o que S.Tomás sustentava a respeito do conhecimento; mas não se pode nunca falar de uma “teoria crítica do conhecimento” em S.Tomás. O problema crítico como tal – que é o problema de que, se na mente humana não aparecem os objetos enquanto tais (diferentemente do que acontece no ato da alimentação) mas apenas uma representação desses mesmos objetos, isto é, as idéias, então como pode o homem ter certeza de que efetivamente conhece objetos exteriores, conhece coisas além das meras idéias que são aquilo que lhes aparece ao espírito? – esse problema terrível e terrivelmente perturbador somente foi posto por Descartes, e vai dominar toda a filosofia moderna – que Maritain, injustamente e, a meu ver, também equivocadamente, chamará de “ideosofia”, como consistindo num outro domínio do saber, diferente do da filosofia. Salientando muito bem o abismo que separa a posição desses a quem chama “ideósofos” da posição da verdadeira filosofia, Maritain pretende identificar aí um outro domínio do saber, contrariamente, aliás, ao conjunto de suas posições sobre todas as correntes da filosofia moderna. E nisso ouso pretender que Maritain claudicou, porque, se se tratasse de um outro domínio do saber, também nele haveria uma verdade, a ser, portanto, também descoberta, também resgatada, também conciliada com as demais verdades, inclusive as da filosofia. Voltando, porém, ao problema crítico como tal, é impossível negar que é sobretudo em Maritain – não só nos “Degrées du savoir” mas sobretudo num extenso e formidável capítulo do “Reflexions sur l’intelligence et sur sa vie propre” (o capítulo 2º: “la vie propre de l’intelligence et l’erreur idealiste”), e também no Gilson do “Le realisme methodique” que se encontra a verdadeira crítica tomista do conhecimento, a resposta tomista aos ensimesmamentos de Descartes e Kant.

 

Talvez se pudesse ainda falar de um quinto domínio: o da Filosofia da Ciência, ou da Filosofia da Natureza, que Maritain confessava ser a grande falta do tomismo moderno: este “ainda não reelaborou, lamentava-se ele no “Paysan”

a filosofia da natureza que é uma das suas peças indispensáveis. Não é uma consolação dizer que tal falta aflige todo o pensamento de hoje. No que diz respeito ao tomismo, já de há muito que a sua filosofia da natureza necessita de ser refundida. A tarefa (sonho desfeito de minha juventude)   não é, decerto, impossível, mas é difícil ao mais alto nível” [28].

 

Maritain chega a dizer que tinha na ponta da língua o nome do filósofo que poderia empreender essa renovação – imagino que seria Ernst R. Korn, pseudônimo de Heinz R. Schmitz, que no entanto, morreu tão moço, pouco depois de Maritain. E me lembro de um escrito de Alceu Amoroso Lima, que era seu amigo pessoal, em que este relata que Maritain até tentou, de longe, estimular, para essa tarefa, o nosso brasileiro Gustavo Corção, que tinha excelente base científica [29]. Apesar dessa confissão de Maritain, pode-se dizer que de algum modo iniciou ele admiravelmente semelhante renovação, com os seus ensaios sobre Freud, sobre a teoria da relatividade, sobre o evolucionismo, sobre várias outras altas questões da ciência moderna, ensaios esparsos, incluídos em variados volumes, mas que, reunidos, já dariam uma excelente base para essa renovação.

 

  1. Entusiasmo permanente, não só de neófito

 

Resumindo, certa vez, a sua trajetória intelectual – na qual, depois da profundidade daquela angústia do “Jardin des Plantes”, chegou a desistir da filosofia, que lhe parecia então incapaz da verdade, mas com a qual logo se reconciliou, pelo encontro com o Anjo da Escola, “cuja amplíssima doutrina curou do bergsonismo o autor e lhe manifestou sua vocação intelectual (vae mihi si non thomistizavero!) como uma nova primavera filosófica” [30] – ele recordou a melancolia com que um ilustre eclesiástico procurou arrefecer seu entusiasmo tomista: “esse ardor de neófito passará, meu amigo, passará” [31], mas garantiu, tranqüilo e seguro, que “não, não passou; ele se tornou, ao contrário, com o tempo, mais tenaz e mais determinado, embora perdendo, eu o espero ao menos, as inúteis asperezas da juventude e da inexperiência”.

 

É a esse “ardor de neófito”, a esse entusiasmo pela verdade, esse desassombro diante do mundo e diante de quaisquer teorias e escolas, que somos convidados, hoje e sempre, os que também nos inquietamos com a existência, com a pura existência tirada do nada, o espantoso fato de ser, e nos perguntamos pelo sentido das coisas – o sentido da vida e o sentido da morte, o sentido da tateante procura, o sentido da aventura de cada homem sobre a terra e da aventura coletiva de todos os homens, o sentido da história. Para tudo isso, Maritain ainda pode ser uma luz – e é formidável graça para nós quase termos sido contemporâneos dele, ainda termos ouvido, poucas décadas atrás, a sua voz e a sua mensagem.

 

(publicado na revista Ágora Filosófica, revista semestral do Departamento de Filosofia da UNICAP, Recife, PE, ano 5, nº 1, jan/junho de 2005)

[1] Russell, Bertrand – História da Filosofia Ocidental, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1957, livro 2º, p. 182.

[2] Russell, op. cit – p. 183/184.

[3] Russell, op. cit., p. 183.

[4] Maritain, Jacques – Princípios de uma política humanista, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960, p. 163.

[5] Citado por Gustavo Corção, Jacques e Raissa Maritain, in “A Ordem”, maio/junho de 1946, p. 148.

[6] Maritain, Raissa – As grandes amizades, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1947, p. 61.

[7] Maritain, Raissa, op. cit. p. 62.

[8] Maritain, Raissa, op. cit. p. 62.

[9] Maritain, Raissa, op. cit. p. 63.

[10] Maritain, Raissa, op. cit. p. 63.

[11] Maritain, Raissa, op. cit., p. 64.

[12] É o capítulo 3º do Antimoderne, Editions de la Revue de Jeunes, Paris, 1922.

[13] Maritain, Jacques – Lê Docteur Angélique, Atlantica Editora, Rio de Janeiro, 1945, p. 138.

[14] Maritain, Jacques – Antimoderne, Editions de la Revue de Jeunes, Paris, 1922, p. 154.

[15] É o capítulo 2º do Antimoderne.

[16] Maritain, Jacques – Lê Paysan de la Garonne, Desclée de Brouwer, Paris, 1966, p. 201.

[17] Maritain, Jacques, ibidem, p. 202.

[18] Maritain, Jacques, ibidem, p. 203.

[19] Maritain, Jacques, ibidem, p. 144.

[20] Maritain, Jacques, ibidem, p. 189.

[21] Maritain, Jacques, ibidem, p. 190.

[22] Maritain, Jacques, ibidem, p. 145.

[23] Maritain, Jacques, ibidem, p. 192 a 194.

[24] Citado por Jacques Maritain in Antimoderne, p. 20.

[25] Maritain, Jacques, Le Paysan de la Garonne, p. 145.

[26] Outros leigos formidáveis, para falar somente dos leigos, também o século XX conheceu, como Etienne Gilson, Henry Bars, Olivier Lacombe, Yves Simon, Louis Gardet, Louis Massignon, Stanislas Fumet, Charles du Bos, Etienne Borne, ou meio tomistas como Nicolas Berdiaeff e Emmanuel Mounier – de todos eles, porém, Maritain foi inegavelmente o maior

[27] Maritain, Jacques – Sobre a filosofia da história, Editora Herder, São Paulo, 1962, p. 12.

[28] Maritain, Jacques, Le Paysan de la Garonne, p. 206-207.

[29] Lima, Alceu Amoroso Lima – Visita a Maritain, in “A Ordem”, vol. XLVI, 1951, nº 3-4, p. 68

[30] Maritain, Jacques – Antimoderne, Editions de la Revue de Jeunes, Paris, 1922, p. 14.

[31] Maritain, Jacques, ibidem, p. 14.