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Maritain nos dias de hoje?

Maritain nos dias de hoje?

29 ago 2017

Que sentido tem, ler Raïssa e Jacques Maritain nos dias de hoje?
Não se trata de discutir a atualidade de Maritain, mas antes de situá-lo no
percurso do pensamento filosófico dos autores cristãos das últimas décadas,
na maioria teólogos, com o objetivo específico de chamar atenção para a sua
identidade, que é também a razão, nem sempre bem explicitada, dos grupos de
estudiosos de seu pensamento.
Para entender a importância, num certo sentido, perene da obra de Maritain
parece-nos indispensável partir do homem, ou mesmo, do casal cristão,
apaixonado pela busca da Verdade, segui-lo na docilidade com que percorreu
o itinerário que lhe reservou a Providência, manifestado na harmoniosa
sequência de suas obras, cuja unidade se revela à luz do Espírito que as
anima.

O cristão
Comecemos pela dramática proposta que fizeram juntos, os jovens
universitários Raïssa e Jacques, no Jardin des Plantes – a verdade ou a morte
– proposta reveladora do clima cultural de divisão e de confronto da época,
proposta radical, quase incompreensível em nossos dias, em que o diálogo
não é mais uma opção, mas uma necessidade de convivência com o diferente.
Seduzidos pelas preleções de Henri Bergson, foram levados a procurar Léon
Blois num caminho de conversão, em contraste com o clima de liberdade e
ecumenismo que hoje reina nas diversas tradições religiosas e culturais
judaico-cristãs.
Maritain, em busca de uma vida na verdade, segue o caminho ditado pela sua
sede íntima de absoluto e insatisfação com o relativismo reinante no ambiente
positivista, racionalista e diletante que predominava na universidade. O
discurso de Bergson, por um lado, os desperta para a experiência da realidade
da vida e por outro, o testemunho cristão o faz descobrir o tomismo,
ressuscitado pela Igreja de seu tempo. Pede o batismo e suscita seus primeiros
ensaios, tanto filosóficos 1 como na área da história da cultura 2 .

1 Réflexions sur l’intelligence et sur sa vie propre, Paris, Nouvelle librairie nationale,
1924
2 Trois réformateurs : Luther, Descartes, Rousseau, avec six portraits, Paris: Plon,
1925

Pela qualidade de seus trabalhos, Maritain logo se revelou como mestre,
embora sua atuação não o qualifique para o quadro institucional, nem público,
marcado pela laicidade do Estado, nem eclesiástico, domínio exclusivo dos
clérigos.
Na verdade, o pensamento de Jacques Maritain o levava a discutir inúmeras
questões centrais da teologia, principalmente na esfera do conhecimento de
Deus e da antropologia, as duas primeiras partes da Suma Teológica, em
particular a teologia mística e a ética social.
Pode-se dizer que Os degraus do saber 3 e O humanismo integral 4 são as duas
obras maiores do filósofo, passeando como cristão, místico e leigo, à luz da fé,
nas principais avenidas da problemática teológica dos anos trinta.

Seu pensamento
É demasiado simplista dizer que Maritain é um filósofo tomista. Ele mesmo se
considerava discípulo de Tomás de Aquino, mas o foi à sua maneira, o que o
revestia, em muitas questões, com as cores de verdadeiro renovador, sendo
criticado, às vezes, fortemente, pelos teólogos, tanto tomistas propriamente dito
que seguiam os comentadores clássicos do início da modernidade – Cajetano,
João de Santo Tomás e os Salmanticenses, por exemplo – como os
autodenominados tomasianos, que começavam a colocar a obra de Tomás no
contexto histórico medieval, acolhendo o estilo atual de fazer teologia, posição
que prevalece hoje, depois do Vaticano II.
O tomismo de Maritain, porém, é original. Não que ele tenha buscado a
originalidade. Considerava-se um tomista clássico 5 , digamos, e formava ao lado
dos tomistas mais conservadores, que em geral contam com ele. Esse é,
justamente, um dos grandes problemas da herança mariteniana, sua tendência
a se manter nessa linha conservadora, resistente ao diálogo com o
pensamento contemporâneo, tanto em filosofia como em teologia.
O que caracteriza o pensamento de Maritain se poderia ir buscar na posição
que tomou na famosa discussão sobre a natureza da filosofia cristã, no início
dos anos trinta 6 . Maritain não concorda com a ideia de uma filosofia
propriamente cristã, defendida por Étienne Gilson, mas admite que o cristão
tem seu modo de abordar as questões como homem de seu tempo,
antecipando assim, de décadas, o que hoje se entende por diálogo intercultural

3 Distinguer pour unir ou Les degrés du savoir, Paris 1932
4 Humanisme intégral. Problèmes temporels et spirituels d'une nouvelle chrétienté,
Paris: Fernand Aubier, 1936
5 Le docteur angélique, Paris, Paul Hartmann, 1929
6 De la philosophie chrétienne, Paris, Desclée de Brouwer, 1933

e que, de certo modo, está na raiz do pensamento oficial da Igreja, expresso na
primeira exortação apostólica do papa Francisco, a Evangelii gaudium.
Maritain não somente pode, mas deve ser lido como um cristão em diálogo
com seu tempo e é isto que faz sua grandeza, tanto no campo da filosofia
como da ética, em especial na política e na busca da paz, inclusive no campo
internacional. A contribuição que deu na célebre reunião da UNESCO, há
setenta anos, na origem à Declaração dos Direitos Universais do Homem, de
1948, está esboçada em Primado do Espiritual 7 e tem seu fruto maduro nos
propósitos do Camponês do Garone 8 , em que se define em relação aos novos
tempos.

O contexto
Com a morte de Raïssa, Jacques Maritain passou a integrar a Fraternidade dos
Irmãozinhos de Foucauld, gesto revelador da dinâmica profunda de sua vida,
do Espírito que a animou desde o princípio.
Espírito que o levou a se casar com uma mística russa, fecundando o
racionalismo francês com o espírito do cristianismo oriental. Espírito que o
levou à lucidez com que acolheu na obediência, num momento difícil, a
orientação de Pio XI, afastando os católicos da Action Française. Espírito que o
chamou para a intimidade de uma fraternidade contemplativa, quando ficou
sozinho.
Ousamos por isso, concluir, lembrando o célebre dito de são João da Cruz, que
Maritain gostava de citar: “ao entardecer dessa vida seremos julgados pelo
amor”. Animada pelo Espírito, chega-se à conclusão de que sua vida e sua
obra não podem ser definitivamente entendidas senão à essa luz.
São Paulo, 25 de Agosto de 2017

Francisco Catão

7 Primauté du spirituel, 1927
8 Le paysan de la Garonne. Un vieux laïc s’interroge à propos du temps présent, Paris, DDB, 1966