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O PAPA FRANCISCO E SEU CONTEXTO

16 jul 2014

por Rubens Ricupero

Este artigo foi apresentado em 16 de julho de 2014, ao Grupo Cultural Católico, pelo Embaixador Rubens Ricupero, Presidente do Conselho do Instituto Jacques Maritain do Brasil. Trata-se de uma analise fundada em dezenas de homilias e de falas do Papa Francisco desde sua ascensão à Cátedra de São Pedro. O trabalho do Embaixador é de larga abrangência e de relevante analise. Nas palavras do próprio Autor “ o texto é como o “mysterium lunae” do qual fala o papa Francisco: ele apenas reflete as coisas maravilhosas que Deus traz por meio do seu servo Francisco. A mim coube somente o trabalho por assim dizer braçal de ler uma infinidade de artigos, recolhendo, aqui e ali, as pérolas do tesouro do que ele diz e faz”.

Perspectiva: vou falar como se fosse um analista de imprensa ou historiador contemporâneo, tentando explicar as razões da escolha de Jorge Bergoglio como papa, os objetivos que anunciou e o que alcançou realizar até agora. Não me ocuparei de doutrina, teologia, conteúdo de documentos, deixando esses aspectos para quem é competente. A Igreja Católica será apresentada, quase sempre, como instituição humana, histórica, inserida no espaço e no tempo, não de uma perspectiva teológica ou de fé religiosa. Tampouco repetirei o que já se comentou muito: a visita ao Brasil para o Encontro Internacional da Juventude, o êxito de Francisco com todos, não somente os jovens, mas a população do Brasil e outros países, autoridades, imprensa, religiões diferentes, os documentos e discursos na ocasião. Com esse sucesso importante, ao ter passado brilhantemente no primeiro teste, o papa adquiriu as condições por assim dizer políticas, de opinião pública, para enfrentar as resistências passivas e levar avante aquilo para o qual foi eleito: a reforma.

Razão de ser da eleição: De fato, Francisco foi eleito por um motivo claro: realizar “reforma profunda e radical”. É o que transpirou do testemunho, entre outros, do cardeal Jaime Ortega, de Havana, que, no dia 23 de março, com a autorização do papa, leu em missa na Catedral cubana, o pequeno texto manuscrito em que o já então eleito papa havia resumido, a seu pedido, os quatro pontos da intervenção que Bergoglio fizera no pré-conclave e que aparentemente se mostrara decisivo para garantir-lhe a eleição. Vale a pena reproduzi-los agora, pois é notável a linha de continuidade entre esse curto discurso e o que vem sendo o desempenho do papa no dia a dia.

1º ponto) A Igreja é chamada para sair de si mesma e ir para as periferias, não apenas geográficas, mas existenciais: as do mistério do mal, do pecado, da dor, das injustiças, das ignorâncias e recusas da fé, do pensamento, de toda a miséria.

2º ponto) Se não sai de si mesmo, a Igreja se converte em organização autorreferencial, centrada em si mesma e adoece, cai no “narcisismo teológico” (quando Jesus diz que bate à porta, não é só querendo entrar, é querendo sair, quando “não o deixamos sair”).

3º ponto) em tal caso, sem se dar conta, a Igreja passa a acreditar que possui luz própria, deixa de ser o mysterium lunae, isto é, o mistério da lua, cuja luz provém do reflexo do sol, como a da Igreja deve provir de Deus; provoca o mal do mundanismo espiritual, segundo De Lubac, o pior mal que pode sobrevir à Igreja, esse viver para se dar glória uns aos outros.

4º ponto) pensando no próximo papa: um homem que, a partir da contemplação e da adoração de Jesus Cristo, ajuda a Igreja a sair de si própria para passar às periferias da existência.

Quando se relê esse singelo texto, vê-se que está tudo aí. Praticamente, todas as exortações, as homilias, os discursos são desenvolvimentos dessas ideias básicas.

A pedagogia dos sinais e dos gestos: O primeiro aspecto a realçar no novo papa é sua escolha da pedagogia do exemplo. Escrevi um artigo no qual lhe aplicava um dos sermões de Santo Antonio. Dizia o santo: estamos saturados de palavras e desertos de obras. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. É o que vem fazendo pelo rico simbolismo da escolha do nome, mais que um nome, um programa de vida: Francisco é sinônimo de pobreza, simplicidade, humildade, alegria, amor dos bichos e das plantas, amor da Criação.

Desde o primeiro momento, ao ser apresentado ao povo na sacada de São Pedro, Francisco começou a reformar a Igreja “reinventando” o papado pelo nome, a recusa dos paramentos mais elaborados e, acima de tudo, o gesto fortíssimo de pedir ao povo de Deus que rezasse por ele e o abençoasse. Desde então, vem vivendo estritamente esse programa: voltar à Casa de Santa Marta de ônibus, pagar ele mesmo a hospedagem e, principalmente, recusar morar nos apartamentos papais, permanecendo em Santa Marta, modesto hotel em termos da hotelaria romana.

A escolha é duplamente significativa: recusa viver num palácio (lembra não ser príncipe da Renascença) e fica perto e acessível, evita o isolamento, condição inicial para as intrigas e manipulações dos cortesãos de todo tipo. Passa a governar de um lugar aberto, sem delegar a quem quer que seja o controle de sua agenda, o domínio do acesso a ele. Na casa de hóspedes, pode encontrar bispos e padres nos corredores, nos refeitórios. É significativo que tenha declarado às crianças que sua decisão não se deve tanto à recusa do luxo, mas à recusa da solidão, do isolamento, raiz básica da manipulação a que foram submetidos papas anteriores.

Seria infindável relacionar todos os demais gestos e sinais que vem acumulando: a recusa de automóveis de luxo, de carros blindados, da segurança a expensas do contato direto com as pessoas, a malinha preta carregada por ele mesmo, o pedido à Alitália para que o avião na viagem ao Brasil não tivesse nenhuma instalação especial, a preferência em se chamar, não de papa, mas de “bispo de Roma”, para salientar que é um bispo entre os bispos, para facilitar a aproximação com os ortodoxos, ciosos da autonomia de suas igrejas, as visitas a prisões, a favelas, a hospitais, o toque pessoal e caloroso, o abraço às pessoas, a roupa branca simples, a liturgia sem rebuscamentos. Por essa sequência de gestos e sinais, Francisco prepara e antecipa a reforma que deseja: só não consegue imaginar como seria essa reforma quem realmente não quer ver, pois tudo está nesses gestos e sinais.

A preparação da reforma: a nomeação da comissão de oito cardeais, nenhum deles da Cúria propriamente dita, fato em si já insólito, deixa perceber a primeira característica da mudança em preparação: uma reequilibragem do excesso de centralização romana dos últimos séculos em favor de maior participação dos bispos locais, de mais ênfase na colegialidade, num governo menos autocrático, centrado num monarca absoluto, em direção a um maior poder às conferências episcopais nacionais.

Durante a visita ao Rio de Janeiro, o papa se reuniu por várias horas com o cardeal de Honduras, coordenador da comissão e anunciou as várias reuniões que tencionava manter a partir do início de outubro de 2013 com os membros desse colegiado, que já constitui, em si mesmo, um esboço de ministério, de gabinete, de possibilidade de partilha até certo ponto no processo de tomada de decisão. Houve já várias reuniões e entre os dias 17 e 19 de fevereiro de 2014 se realizaá novo encontro do chamado G8, talvez para começar as mudanças nas Congregações romanas, nos numerosos conselhos pontifícios, falando-se em fusão de alguns, na nomeação da pessoa incumbida de dirigir a comissão sobre abuso de menores.

O que se vai reformar?: Há certa tendência, até inconsciente, de julgar que a reforma é a da Cúria romana, como se o resto não estivesse igualmente necessitado de transformação. A abordagem de Francisco é diferente, é a mesma de Madre Teresa de Calcutá. Um bispo lhe havia indagado por onde ela começaria a reforma da Igreja. A minúscula freirinha contestou: “Por mim e por Você!” Quer dizer, a reforma passa por profunda conversão interior, por mudança de vida de cada um de seus membros que constituem, em conjunto, a Igreja. Este é um ponto no qual Francisco se distancia da maioria dos observadores, dentro e fora da Igreja, que tendem a dar importância quase exclusiva e absoluta à reforma das estruturas, das instituições. Da mesma forma que ocorre em relação à vida político-econômica, a posição de Francisco é que a reforma das estruturas e da organização será ineficaz se não vier acompanhada da conversão profunda, da mudança de vida, no sentido que claramente indicou: sair da sacristia, sair do conforto, ir às periferias do mundo, pagar o preço de si mesmo. No discurso à Comissão de Coordenação do CELAM, o papa afirma de modo lapidar: “A ‘mudança de estruturas’ (de caducas a novas) não é fruto de um estudo de organização do organograma funcional eclesiástico de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da missão”. E, para que não se confunda missão com proselitismo, esclarece que se trata de “uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e todos os homens de boa vontade”.

Aliás, o discurso se desdobra sugestivamente em duas partes complementares: a “Reorganização interna da Igreja” e o “Diálogo com o mundo atual”. Nesse mesmo texto, uma das passagens mais interessantes é a descrição dos riscos desse processo: ideologização da mensagem evangélica, redimensionamento da mensagem de caráter socializante, subordinando-se às mais variadas abordagens, das ideologias do mercado às concepções marxistas, a ideologização psicológica, elitista, autocentrada, de uma espiritualidade individualística, as propostas gnósticas dos iluminados, dos pelagianos desejosos de retorno ao passado etc.

Na longa e inesperada conferência de imprensa que concedeu aos jornalistas na viagem de volta a Roma, texto também notável pelo que deixa transparecer das intenções profundas do papa, há sugestões dos inúmeros campos que a reforma deve cobrir. Alguns são óbvios e mais do que aguardados: o banco vaticano, por exemplo, I.O.R., o Instituto para as Obras de Religião. Francisco diz aguardar as propostas que solicitou e não sabe se o banco deve continuar a existir, se deve ser transformado em um fundo ou outra coisa. O cardeal de Honduras indagou: por que não um “banco ético”?

Outras pistas: a de que a comissão, os novos cardeais designados e o sínodo especial convocado para outubro e sugestivamente antecedido de consulta ampla, inclusive aos simples fieis, devem refletir sobre a pastoral do matrimônio, divórcio e temas correlatos, à luz das “entranhas de misericórdia de mãe”. As palavras fortes sobre o que seria da Igreja se perdesse as mulheres e a afirmação que Maria é mais importante que os apóstolos, que se necessita urgentemente de uma profunda teologia da mulher. Também foram significativos os silêncios: a recusa de multiplicar condenações, de repetir as posições conhecidas em matéria bioética e moral em geral, a abertura e compreensão em relação aos homossexuais. Em contraposição, outros gestos antes ausentes, como a viagem a Lampedusa, a coroa de flores atirada ao mar onde se afogaram tantos refugiados, o jejum pela paz na Síria, o anúncio da visita à Terra Santa e do encontro com o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla.

Alguns fatos relevantes: Além do que ficou dito acima, valeria talvez a pena lembrar ou reiterar alguns fatos fundamentais. Comecemos pela razão da escolha: não se buscou um teólogo, um mestre de doutrina, como foi admiravelmente Bento XVI. Desejava-se um pastor, o que, em linguagem adaptada às instituições humanas não religiosas, pode-se dizer da seguinte forma: precisa-se não de um teórico, mas de um homem de ação. Dotado, porém, de visão estratégica, de nítida percepção do caminho que tenciona trilhar. Escolheu-se, nessas condições, um homem com experiência provada de chefia de uma grande diocese. Não se confunda esse atributo com a mera ação pela ação. Por isso, conforme acentuou Francisco Catão no debate, foi-se buscar um jesuíta, tipo de religioso de formação intelectual rigorosa colocada a serviço da ação.

Sentia-se necessidade não apenas de um pastor qualquer, mas de alguém vindo de um contexto político, religioso, cultural, extra-europeu, mais perto das tendências que assinalam a lenta deriva do pêndulo da história para os continentes da Ásia, África e América Latina. Dada a maior densidade do catolicismo latino-americano do que o asiático ou o africano, parece lógica a preferência por um pastor de grande diocese latino-americana dotado de força intelectual, cultural e moral capaz de lhe permitir imprimir ao conjunto uma visão estratégica. Dentre as muitas razões do acerto da escolha, uma recente, ainda fresca na memória, foi essa do contato com as multidões no Brasil: pode-se imaginar algo similar com um papa não latino-americano?

Outra característica forte deste papa é a insistência na autocrítica: em vez de repetir incansavelmente as condenações do mundo exterior, volta-se o olhar para dentro, mas sempre no plural “nós”, o papa não se excluindo, ao contrário, da censura, chamando a si próprio de pecador (na entrevista às revistas jesuítas), solicitando que rezem por ele. Tal característica lhe dá autoridade para ser extremamente duro nas palavras que dirigiu à Cúria na saudação do final do ano, descrevendo-a às vezes como “imensa alfândega burocrática e pastoral” inclinada a proibir e punir, com laivos de Inquisição, verberando o mundanismo e o carreirismo dos “bispos de aeroporto”, que não param em suas dioceses, ambicionando promoções, os “padres fiscais de aduana” que recusam o batismo a crianças nascidas fora do matrimônio. Mostrou-se espantado com a quantidade de denúncias e acusações de desvios da ortodoxia que chegam ao Vaticano quando deveriam ser tratadas pelas conferências episcopais nacionais.

Embora fale sempre em ternura, o papa tem sido um administrador muito rigoroso, demitindo os incompetentes sem disfarces ou atenuações. Afastou o anterior Secretário de Estado (Tarcisio Bertone, apontado pelos analistas como responsável pela desorganização que levou aos escândalos do fim do pontificado de Bento XVI), nomeou um diplomata, Pietro Parolin, mas, aparentemente, tem destinada a Secretaria de Estado mais a seu propósito original, o de conduzir as relações diplomáticas. Dispõe de uma rede paralela de auxiliares e conselheiros, que torna perplexos e impotentes os que antes se tinha habituado a manipular as decisões através da Cúria. Demitiu o cardeal Piacenza, que havia subvertido a gestão de Cláudio Hummes na Congregação do Clero, onde o substituíra. Igualmente afastou o cardeal norte-americano Burke, principal influência na escolha de bispos tradicionalistas.

Um aspecto histórico na sua reforma do papado é a determinação de não se deixar envolver na perigosa política italiana, sempre em busca de alianças incestuosas em favor de indivíduos como Berlusconi, imorais, mas dispostos a ceder aos bispos em troca de apoio eleitoral. Vem fazendo o mesmo em relação à Igreja italiana, que se acostumara a considerar o Vaticano e a Cúria como sua propriedade particular, fazendo dessas instituições o campo para o carreirismo. Alguns analistas comparam a atitude à luta, nove séculos atrás, para emancipar a Igreja do poder do Imperador.

Inovou por completo igualmente com a inauguração das missas diárias com homilias simples nas quais vai gradualmente destilando seu pensamento, em certas ocasiões, censuras contra as “murmurações”, as populares “fofocas”, intrigas, comportamentos desleais. Nisso, a inspiração vem não somente das “Fioretti”, de São Francisco, os pequenos episódios, as anedotas do cotidiano, com seu tempero de humor, mas Jesus no Evangelho, no seu dia a dia de viagens, de repouso na barca ou na montanha, nos encontros fortuitos com a samaritana, a mulher Cananeia, os cegos, os leprosos, isto é, num caminho que vai se fazendo a si mesmo no caminhar, num conjunto de ensinamentos brotados espontaneamente dos encontros e do diálogo.

Acrescenta a isso, os ensinamentos mais sistemáticos e elaborados, continuando as catequeses, documentos como a Alegria de Evangelizar, as tomadas de posição de denúncia dos excessos e injustiças dos sistemas político e econômico. Tudo indica, porém, que o momento histórico não é mais aquele que clamava por um novo concílio; aquilo de que se precisa é viver e aplicar em plenitude o que nos legou o Vaticano II.

É curioso até lembrar que, no conclave anterior, de 2005, que elegeu Bento XVI, o preferido dos cardeais mais voltados para a ênfase na reforma era igualmente um jesuíta que tinha sido o arcebispo de uma grande diocese, o cardeal Martini, de Milão, descartado pela saúde frágil. Aliás, Bergoglio, que na ocasião também recebera forte votação, confidenciou a um cardeal que, se tivesse siso eleito então, teria se chamado João XXIV.

Foi extremamente encorajador que Francisco tenha anunciado que João XXIII, homem da alegria diante do mundo, disposto a correr riscos, convencido da necessidade de se abrir ao mundo, de acentuar o que o moderno possui de positivo, será canonizado ao mesmo tempo que João Paulo II. Este último, na necessária dialética da constante busca do equilíbrio, trouxe o pêndulo de volta às vezes ao confronto com aquilo que no mundo aparece como inimigo do Espírito. A síntese simbolizada por essa dupla canonização poderá ser, quem sabe, a marca definitiva deste pontificado.