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ARTE SACRA E BENS CULTURAIS DA IGREJA

27 fev 2013

AULA MAGNA de abertura do 1º semestre letivo do curso do Museu de Arte Sacra: “Arte Sacra e Bens Culturais da Igreja” – em 27/2/2013

BELEZA E ARTE NA HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA

Maria Luiza Marcilio-Presidente del Instituto Jacques Maritain de Brasil

”Se tirardes de vosso coração o amor ao Belo, tirareis dele todo o encanto de viver”.

J.J.Rousseau

 

Arte e Beleza são duas dimensões que se encontram intrinsecamente associadas desde as primeiras manifestações artísticas da humanidade. Dizer que um ser ou uma criação do homem é Belo é dizer que ele nos atrai, que nos cativa. O Cardeal Paul Poupard, que foi Presidente do Conselho Pontifício de Cultura, escreveu: “uma realidade bela possui em si mesma uma irradiação capaz de suscitar a admiração, como também o desejo de uma visão, e de um êxtase permanente na contemplação da realidade. Esse olhar metafísico nos ajuda a compreender por que a Beleza é um caminho real para levar a Deus.Sugerindo-nos quem Ele é, ela suscita em nós o desejo de possuí-Lo no repouso da contemplação, não apenas porque só Ele pode saciar nossa inteligência e nossos corações, mas porque contém em si a perfeição do ser, fonte harmoniosa e inexaurível de claridade e luz”.[1] Todos conhecem a frase de Dostoievski (1821 – 1881): “A Beleza salvará o mundo”.

Ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica nos parágrafos que dedica à Beleza e à Arte sacra: “Criado à imagem de Deus o homem exprime também a verdade de sua relação com Deus Criador pela beleza de suas obras artísticas” (§2501) e mais: “A arte sacra verdadeira leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador” (§2502). Por sua natureza, a arte sacra tem em vista exprimir de alguma forma nas obras humanas, a beleza infinita de Deus e procura aumentar seu louvor e sua gloria na medida em que não tiverem outro propósito senão o de contribuir poderosamente para encaminhar os corações humanos a Deus.

O cristianismo, desde suas origens fez da Arte uma forma de evangelização. Ele associou, igualmente, Estética e Ética. A Arte tem como especifico dever e objetivo a Beleza; mostrar o esplendor da verdade pela Beleza. A Igreja Latina e a Igreja do Oriente, através dos séculos, buscaram, de forma privilegiada exprimir e representar visivelmente, pelas várias expressões artísticas, a verdade da Fé e a bondade do crer. Temos grandes tesouros. Com toda certeza, o maior acervo de Arte de toda Historia da humanidade foi construído pelos cristãos, sempre inspirados nas Escrituras. A Arte foi o melhor vinculo para comunicar o conteúdo da Fé, da Boa Nova.

A Arte Sacra através de todas as formas: da musica, da literatura, da arquitetura, da pintura, da palavra, das artes cênicas, da liturgia- comunica melhor que todas as demais formas e de maneira eficaz, o mistério de nossa Fé e permite a serenidade da contemplação. Aqui perto, no centro da cidade de São Paulo, o canto gregoriano na liturgia dominical da celebração da eucaristia, a missa das 10hs do Mosteiro de São Bento, atrai centenas de crentes e de não crentes. Edificados, silenciosos, maravilhados ficam todos ante a Beleza do coro dos monges e da competência do órgão, sem falar no belo, expresso em sua arquitetura, esculturas e pinturas.

Vivemos num tempo em que se nota a decadência do sentido da Beleza em todas as expressões artísticas. Afirma o Cardeal Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício da Nova Evangelização, em seu livro publicado em 2011: “onde há menos Beleza, ai vem a faltar o amor e com isso o sentido da vida. Se a Beleza de fato se exaure e não é mais capaz de suscitar o gênio para criar a obra que perdurará no tempo, então caímos no efêmero e conseqüentemente, perdemos até o sentido da verdade e da bondade. Se há menos força de atração da arte então nos tornamos incapazes de criar cultura e a vida pessoal e social torna-se insípida”.[2]

Outro dos grandes teólogos do século XX, Hans Urs Von Balthasar (1905-1988) diz que: “A primeira coisa que captamos do mistério de Deus geralmente não é a verdade, mas a Beleza”. Por sua vez, a teóloga brasileira Maria Clara Bingemer afirma: “Beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério”. E para concluir com outra citação escolhemos a do grande escultor Frances Rodin: “não há na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única Beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é obvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade”.

Essa afirmação nos remete a uma reflexão teológica fundamental. Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é Bela, ou que o belo é o verdadeiro. Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas.

Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para descrever a experiência estética. Da tradição judaico-cristã e na rica mística do cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao Outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da Beleza desse outro que deslumbra ao mesmo tempo em que atemoriza com a força da sua sedução. A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.

Desde os primeiros anos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e de sua representação. Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente Belo. Apóia-se no salmo de David que cantava: “O mais belo dos filhos dos homens reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza”. Esta sublimação do Cristo coincidia com as concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e de São João Crisóstomo: Jesus, afirmavam eles, era fisicamente Belo.

Ao contrario, os monges e Padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de Beleza fulgurante. Seguiam nisso o profeta Isaias: “O Filho do Homem é sem Beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos. Era um objeto de desprezo, o ultimo dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade, não tinha graça nem beleza que o pudesse atrair nossos olhares”. São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém e São Basílio, bispo de Cesárea, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente como os escravos.

Ao longo da historia do Cristianismo essas duas tendências vão se alternar sobre as representações da figura de Jesus Cristo. Por vezes, será  representado com esplendor e gloria dentro dos cânones de beleza vigente em cada época, como os Cristos bizantinos. Sem duvida, com incenso, brilhos, musica e grandes igrejas de pedra é preciso dar às pessoas simples, analfabetas, pobres um pouco de razão para terem esperança no alem, de refletir um pouco sobre a imponente imagem imperial do Pantocrator, pintada sempre no mais alto da cúpula maior das igrejas, mosteiros e basílicas ortodoxas, prefigurando a abóboda celeste. Essa foi a arte que dominou na Alta Idade Media com suas igrejas e mosteiros de pedra dos monumentos do período medieval românico e que apraz reencontrar os belos pilares, simples e regulares e as altas abóbodas arredondadas, sob os quais a luz se espraia amplamente.

A arte que exprimiu o Cristo Belo cheio de esplendor e glória foi retomada pelos renascentistas, e séculos depois exaltado no neo- gótico do século XIX,  sobretudo.

Ao contrario, buscou-se representar e venerar o Cristo de forma inseparável do mistério da cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplicio, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, e o vejam como consolo de seu próprio sofrimento e de suas dores, como em geral vem representado no Barroco.

O cristianismo sempre fez da arte uma forma de evangelização. Ele já encontrou um rico patrimônio construído pelo mundo clássico: greco-romano, somado ao oriental. Dois mil anos de caminhada na Historia, desde seus primórdios o cristianismo exaltou a arte nas suas múltiplas expressões, como meio de se chegar mais rápido a Deus. São Paulo exaltava os Efésios sobre a força da musica como expressão de oração e da contemplação: “Recitai entre vos os salmos, hinos e cânticos espirituais. Cantai e salmodiai ao Senhor em vossos corações”(Ef.5/19).

Nos primeiros três séculos, séculos difíceis das perseguições, foi necessária a criação de símbolos para a arte pictórica e plástica da evangelização. Daí o peixe, o pão, o pastor, o cordeiro… Nesses primeiros séculos a musica, o canto, os salmos puderam mais do que as outras expressões de arte manifestar suas obras na liturgia que se ia compondo nas igrejas domésticas, em grande multiplicação.

Nesses primeiros séculos, sempre de forma escondida das repressões e das invasões de bárbaros nas periferias do Império, foram se processando expressões artísticas diversas. Na Capadocia, região da Anatólia central, uma das terras dos grandes Padres da Igreja (como Basílio de Cesárea, Gregório de Nissa, Gregório Naziazano, dentre tantos), bem como em partes da Ásia Menor com os monges do deserto da Síria, do Egito, da Palestina, todas as regiões de refugio dos cristãos, casas nas rochas, cavernas e cidades subterrâneas foram utilizadas também como igrejas. O mesmo se pode ver nas tumbas cristãs de Roma, conservadas nas cavernas cavadas das catacumbas.  Muitos desses locais de refugio foram adornados com afrescos coloridos de grande beleza, baseados no Novo Testamento.

Com o Edito de Milão em 313, o Imperador Constantino deu fim às perseguições contra os cristãos. Com a liberdade ampla, adquirida pela primeira vez, os artistas cristãos do Oriente e do Ocidente puderam dar asas à sua imaginação criativa e, inspirados nas Escrituras, dar origem a uma arte nova, em suas múltiplas dimensões.

A mãe do Imperador Constantino, Helena visitou a Palestina e ordenou a construção das primeiras igrejas publicas cristãs: a de Belém – Igreja da Natividade e a outra no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. O próprio Imperador Constantino ordenou a limpeza do Gólgota e a ereção aí da Basílica do Santo Sepulcro, como também em Roma da antiga Basílica de S. Pedro e a de São João de Latrão. São as primeiras igrejas abertas ao culto do povo e todas de grande esplendor. São verdadeiros “sermões em pedra”, na bonita definição do historiador Peter Brown, com o fim de despertar a piedade popular de grandes assembléias, nas grandes cidades do Império.

No século VI, o Imperador bizantino Juliano I manda construir a Basílica de Constantinopla, a Hagia Sophia, ou seja, a Sagrada Sabedoria, a maior de todas as igrejas cristãs e por quase mil anos. A Basílica buscou o grandioso, o majestoso, trazendo materiais raros de todo o Império e foi inaugurada em 537, como forma de louvor a Deus, maravilhamento de gerações de crentes e de não crentes.

Enquanto a arquitetura criava o espaço sagrado, progressivamente o desejo de expressar o mistério, a verdade, a ética e a beleza de modo simples levou às primeiras expressões do som e da palavra na liturgia. O papa Gregório o Magno, em seu Antiphonarum, século VI, colocava as marcas do desenvolvimento da musica sacra que ficou conhecida com seu nome, o canto gregoriano que só se tornará a música sacra oficial da Igreja, a partir do século XIII. A música, pela sua própria natureza de ser uma linguagem universal e uma ferramenta para unir as pessoas, foi sempre tomada como excelente canal de evangelização.

Nos séculos da Alta Idade Media a arte cristã teve grande desenvolvimento. No Oriente floresceu a arte dos ícones, nas basílicas, igrejas e mosteiros, apoiados principalmente no mistério da Encarnação e da Transfiguração.

No Ocidente foi se acumulando um patrimônio artístico ao longo dos séculos, com coleções de obras sacras que encheram de admiração os contemporâneos e até nosso século XXI. Na arquitetura sacra, nas grandes construções do culto, o gênio artístico exprimiu o sentido do Belo, nas construções da arte românica, dos duomos e abadias. Ai não há artista individual; é toda a alma do povo expressando sua piedade e mística nas belas construções de pedra da fase românica.

Em 614, Jerusalém e a Ásia Menor foram invadidas pelos persas que massacraram populações e destruíram igrejas e mosteiros sírios e gregos. Seus monges sobreviventes fugiram para o sul da Itália, de onde subindo até Roma foram instalando mosteiros. Entre os anos de 726 e 775 as querelas iconoclastas da Igreja Oriental levaram novas levas de monges da Grécia e Anatólia a se refugiarem no Sul da Itália. Daí a existência nesse período de muitos papas de origem síria ou grega. Com os monges, a liturgia romana se orientalizou e surgia o chamado “Canto do Velho Romano”, anterior à difusão do canto gregoriano. Foi ele o testemunho direto do velho canto bizantino, um dos mais antigos repertórios que se conhece de musica sacra cristã e que até o século XIII acompanhou as liturgias pontifícias. O Canto Romano foi introduzido na Gália por Pepino o Breve, no século VIII e depois seu filho Carlomagno o disseminou em seu vasto Império dando origem ao canto carolíngio, redescoberto no século XX e já em  várias gravações. Esses primeiros reis da França compreenderam a importância da liturgia romana como meio de unificar culturalmente seus povos, em um vasto império desagregado. Carlos Magno rodeou-se de sábios e cientistas que colecionaram vestígios artísticos e científicos da Antiguidade para revivê-la. O Velho Canto de Roma foi um dos meios privilegiados para esse renascimento cultural dos carolíngios. Daí foi que emergiu um novo dialeto o “canto gregoriano” que se expandiu pelo Império do Ocidente e volta a Roma em fins do século IX, onde progressivamente substituiu o antigo repertorio de onde saiu. O Velho Canto Romano, cujas origens remontam o século VI, continuou a embelezar as liturgias pontifícias em São Pedro e nas grandes basílicas romanas até fins do século XIII. A instalação do papado de Avinhão lhes foi fatal, quando acabou por ser suplantado pelo canto gregoriano.

Na Idade Media é toda uma cultura inspirada no Evangelho que desemboca na Arte seja nas igrejas, mosteiros, catedrais, como na admirável poesia de Dante Alighieri que ele mesmo denominou de Divina Comedia, na beleza e majestade de uma Notre Dame de Paris de seus vitrais, de suas esculturas, nas iluminuras coloridas e de preciosas miniaturas que abrem os manuscritos sacros, passando pelo canto gregoriano, do órgão, das obras místicas de Bernardo de Claraval.

São todas expressões de gêneros artísticos que buscam exprimir de formas variadas o mistério do sagrado, através do arrebatamento do sensível à Beleza.

No Renascimento, a Arte assume novas expressões de Beleza e apresenta formas e estilos os mais variados na concepção dos temas religiosos. Obras primas trazem grande profundidade espiritual para enlevo de todos nos. Apenas lembrando alguns dos grandes gênios artistas que agora surgem nomeados individualmente. Michelangelo, com a Capela Sistina imprimiu em suas paredes e teto a obra da Criação até o Juízo Universal. Rafael, mestre da pintura e da escultura é celebrado pela perfeição e suavidade de seus quadros e afrescos em que exprime sua profunda mística. Leonardo da Vinci é um gênio universal não apenas na varias expressões da Arte, como das ciências e foi até um profeta. Lembro apenas na pintura sua obra monumental a Ultima Ceia.

Nessa época do Renascimento realizou-se o grande e longo Concilio de Trento (1545-1563) que teve profundas conseqüências para a arte sacra do Ocidente Católico. O Concilio procurou pela Arte tornar a doutrina e a fé mais compreensível para o grande conjunto dos fieis, que em sua grande maioria era analfabeto. Nesse movimento, a Cia de Jesus teve importância especial, pelo preparo intelectual, teológico e artístico de seus membros, responsável pela expansão da Fé e da Arte Sacra pela Europa, America e Oriente.

A Igreja de Trento orientou para a produção de uma Arte que pudesse chegar até as massas e convertê-las, apelando para o emocional. Todos os meios para essa sensibilização emocional dos fieis foram usados: visões sublimes do paraíso povoado de santos, anjos e no centro  Jesus Cristo ou a Virgem Maria, e no lado oposto visões do Inferno de fogo, de atrozes sofrimentos e de ranger de dentes para sempre.

O Barroco prevalecente desde o final do século XVI até meados do XVIII, tendo a Itália como centro irradiador para os países europeus católicos e deles para a America, esteve ligado ao sistema monárquico absolutista, à Contra Reforma e a uma época de nações de grandes riquezas, devida em boa parte à prata e ao ouro das Américas. Marcou suas Igrejas e conventos com sua pintura e escultura com esplendor exuberante. Usou a Arte sacra como instrumento de evangelização na Fé, na verdade, na ética social.

No Brasil, onde músicos criaram uma musica sacra que pouco deve aos maiores do gênero da Europa, sobressai a beleza das missas e oratórios de Andre da Silva Gomes. Descoberto, restaurado, harmonizado pelo maestro e historiador Regis Duprat, hoje em varias gravações, permitem-nos sentir a força da Beleza dessa criação, com órgão, coro, e outros instrumentos. Tudo numa cidade pobre como era São Paulo na época, quando começava seu enriquecimento, no final do século XVIII, através da cana de açúcar.

Por todo o Brasil, engenheiros militares e pedreiros anônimos construíram igrejas, conventos, mosteiros presentes nas nossas cidades como Belém, São Luiz, Recife, Salvador, Rio, São Paulo, Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes, Sabará e outras. Mais ao Sul essa riqueza esteve nos colégios e nas missões  dos jesuítas.

O barroco ganhou vida e mais beleza no Brasil nas mãos de artistas como Aleijadinho e outros mestres. As ordens religiosas no Brasil contribuíram para o esplendor do barroco. Os jesuítas com seus colégios, aldeias e conventos. Os frades franciscanos  em São Paulo, no Largo de São Francisco com sua Igreja e convento, alem de outras ricas igrejas nas principais cidades coloniais brasileiras, os carmelitas e suas ricas igrejas da Ordem 3ª, e aqui onde estamos o Mosteiro da Luz, primeiro convento feminino da cidade, criação de Frei Galvão.

Depois da Revolução Francesa e de Napoleão floresceu o romantismo que revive com o neo-gótico, o neo-românico, o neo-escolástico, o neo-gregoriano, de que não temos aqui tempo para analisar melhor.

Dando um salto no tempo, chegamos ao Concilio Vaticano II que rompendo com o passado, promulgou vários documentos para estimular o desenvolvimento da arte sacra. Desde seus primeiros momentos surgia a 4 de dezembro de 1963 o Inter Merifica que buscou incluir no horizonte da ética as questões em matéria de estética. Diz o decreto que as virtudes praticadas e cultivadas são instrumento eficaz na edificação do homem e a arte está entre as atividades humanas que, na prática das mesmas virtudes, tem o dever de mostrar o esplendor da verdade, mediante a Beleza.

A exortação ao desenvolvimento artístico esta presente em outros documentos do Concilio, como na constituição pastoral Gaudium et spes: que diz que através da Arte “o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado e a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens”. E no final do Concilio os Padres dirigiram aos artistas uma saudação e um apelo nestes termos: “ o mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este, fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”[3].

Nesse mesmo espírito de profunda estima pela Beleza, a Constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium  lembrou a histórica amizade da Igreja pela arte e especialmente pela arte sacra, considerando a obra dos artistas como “nobre ministério”, quando suas obras são capazes de refletir de algum modo a beleza infinita de Deus e orientar para Ele a mente dos homens.[4]

O papa João Paulo II em sua Carta aos Artistas (p. 26), em 1999, exorta-os: “ Convido-os a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço um apelo a vós, artistas da palavra escrita e oral, do teatro e da musica, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirijo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem”.

A promoção da Beleza pode servir como uma das vias, das mais privilegiadas, para enfrentar os desafios da secularização e da falta de sentido de nossos dias, de elevar o espírito ao divino e de ampliar a Fé.

 

Anexo

Ravasi: sabedoria e beleza, pérola preciosas e coisas novas
Homilia do presidente do dicastério para a cultura, por ocasião da admissão dos novos membros da Pontifícia Academia de Belas Artes e Letras

Por Giuseppe Ruscconi

ROMA, 02 de Julho de 2013 (Zenit.org) – A oportunidade parecia fecunda para a reflexão. E foi mesmo. Quatro dias depois da santa missa presidida em Santa Maria in Camposanto (e da homilia sobre “os verbos dos mártires”), o cardeal biblista voltou sua atenção agora aos “homens ilustres” reunidos na “academia por excelência das belas artes e letras”, reconhecida pelo papa Paulo III em 1542.

O ponto de partida do sermão foi a leitura de uma passagem do Eclesiástico, livro sapiencial que era considerado como a recopilação da essência da cultura judaica. Eram tempos, notou o prefeito emérito da Biblioteca Ambrosiana, em que “havia paixão, admiração” pela cultura, sentimentos que hoje “não se percebem muito no tocante à inteligência e à sabedoria”. Os “homens ilustres” do Eclesiástico eram capazes de conduzir o povo, de distribuir sabedoria, de inventar melodias, de compor canções poéticas; e viviam em paz interior. Aqui, o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura observou que a tradução latina de São Jerônimo adicionava outra virtude aos textos hebraico e grego: “Eram homens dedicados à busca da beleza”.

Todo artista, disse Ravasi, “sente-se propenso ao mistério da beleza, que sempre tem dois lados: o da dor e o da felicidade, penetrando, em ambos os casos, no íntimo, e trespassando o coração”. Se a beleza é, por um lado, a celebração da harmonia, ela é também, por outro lado, “o canto da tragédia”. Aliás, “se não fosse a dor, dois terços da literatura não existiriam, como toda a obra de Dostoiévski”. A beleza, por isso, é grande quando sabe exaltar também a ferida, aquela ferida que sangra.

Referindo-se ao evangelho de Mateus (13, 45: “O reino dos céus é também semelhante a um mercador em busca de pérolas preciosas; ao encontrar uma pérola de grande valor, ele vai, vende tudo o que tem e a compra”; e 13,52: “Todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”), o cardeal Ravasi afirmou que os artistas receberam a pérola como presente e não precisam comprá-la. É a inspiração, que tem em si um caráter sagrado semelhante ao da Palavra de Deus.

“Em alguns aspectos, a linguagem da arte tem uma gramática semelhante à da fé e à do amor”. Pode parecer curioso que o escriba da parábola extraia do tesouro primeiro as coisas novas e depois as coisas antigas. É um caso, no entanto, semelhante “ao das árvores”, que “têm o tronco e as raízes muitas vezes seculares, mas que, a cada primavera, mostram a novidade das folhas sempre novas e sempre diferentes”. As coisas novas são extraídas do tesouro antes porque “são o sinal da criatividade”; entretanto, “a beleza e a novidade se apoiam na tradição” sempre válida. Como disse Bernardo de Chartres, ou talvez João de Salisbury: “Nós somos anões sobre os ombros de gigantes”; e os anões, enfatizou Ravasi, enxergam mais longe que os gigantes.

Passou-se, depois, para a admissão solene de dez novos membros na Pontifícia Academia dos Virtuosos, presidida pelo professor Vitaliano Tiberia: três arquitetos, um pintor, três escultores e três escritores e poetas. Seus nomes, alguns bastante famosos na Itália, são: Lorenzo Bartolini Salimbeni, Mario Botta, Maria Antonietta Crippa, Pedro Cano, Giuseppe Ducrot, Mimmo Paladino, Ugo Riva, Laura Bosio, Vincenzo Cerami e Luca Doninelli. Todos prometeram, no rito de admissão, servir à fé católica.

Como o patrono da Academia é São José, a celebração deveria ter acontecido em 19 de março. Mas, naquele dia -quem é que não se lembra?-, acontecia na Praça de São Pedro o solene início do pontificado do papa Francisco, rico de emoções para a mente e para o coração.


[1] Conferencia do Cardeal Paul Poupard, Presidente do Conselho Pontificio de Cultura, a 1 de novembro de 2000, aniversario da fundação das comunidades monásticas de Jerusalem.

[2] FISICHELLA,Rino. La nuova evangelizzazione. Uma sfida per usscire dall´indiferenza. Milano. Mandatori, 2011, p 114

[3] Mensagem do Concilio aos artistas. 8 de dezembro de 1965. AAS 58(1966), 13

[4] Conc Ecumenio Vat II. Gaudium et spes, 62