Instituto Jacques Maritain do Brasil | MÁRTIRES DA HISTÓRIA DO BRASIL | Instituto Jacques Maritain do Brasil
2902
single,single-post,postid-2902,single-format-standard,ajax_updown_fade,page_not_loaded,

MÁRTIRES DA HISTÓRIA DO BRASIL

30 set 2013

Maria Luiza Marcilio – Presidente do Instituto Jacques Maritain
“O SÃO PAULO”, ano 58 de 24  a 30 setembro de 2013 (semanário da Arquidiocese de São Paulo)

“Animai-vos povo, pois está para chegar o dia em que todos seremos irmãos e iguais!”. Esta foi uma das frases escritas à mão, dos panfletos que foram colocados na porta de igrejas na saída das missas e colados nas esquinas da cidade de Salvador, Bahia, em 12 de agosto de 1798. A cidade já não era mais a Capital da Colônia brasileira. O povo passava fome com o alto preço e a falta de alimentos e era massacrado pela continua elevação dos impostos.

As noticias das idéias de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, chegavam da Revolução Francesa e da Independência dos Estados Unidos da America. Escravos e libertos do Haiti acabavam de proclamar a primeira Republica  Negra da América.

Tudo propiciava um clima de insubordinação que contaminava quartéis e particularmente o povo pobre. A revolta disseminava entre artesãos, pequenos comerciantes, alfaiates, soldados, livres e escravos.  Alguns da elite branca culta traziam livros e idéias novas dos iluministas franceses que empolgados criaram uma Loja Maçônica, intitulada “Cavaleiros da Luz”, para debater as novas idéias e preparar um movimento emancipacionista.

Os panfletos que distribuíram naquele dia continham seis pontos de luta: abolição da escravidão; proclamação da Republica; diminuição dos impostos; abertura dos Portos; fim do preconceito; aumento dos salários dos soldados.

Os líderes principais foram Cipriano Barata, médico dos pobres formado em Montpellier, na França, e jornalista e o Padre  Francisco Agostinho Gomes, críticos ardorosos do opressor regime colonial português.

O movimento foi denunciado às autoridades portuguesas. A rainha de Portugal, D. Maria I ordenou rigorosa investigação e condenação dos principais. Foram presas 59 pessoas e muitos torturados. Apenas os pobres, negros – escravos e libertos- foram processados, com prisão perpetua ou degredo para a África. Todos da elite branca foram absolvidos ou sequer investigados. Conhecido como a Revolta dos Alfaiates, foi o único movimento popular e abolicionista.

Em 8 de novembro de 1799, um cortejo triste, percorrendo as principais ruas de Salvador, levou ao cadafalso os quatro únicos sentenciados de morte; todos negros. Enforcados, tiveram os seus corpos esquartejados e expostos pelas ruas da cidade. Seus nomes não são alvo de celebrações em nossa Historia e não são conhecidos: João de Deus e Manoel Faustino dos Santos, alfaiates; Lucas Dantas e Luiz Gonzaga, soldados.

Maria Luiza Marcilio è Professora Titular da USP, ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP e presidente do Instituto Jacques Maritain do Brasil